Teonanacatl

Aqui discutimos micologia amadora e enteogenia.

Cadastre-se para virar um membro da comunidade! Após seu cadastro, você poderá participar deste site adicionando seus próprios tópicos e postagens.

Tentando degustar a não dualidade. Porém, um gosto amargo 😌

Reishi

Hifa
Cadastrado
22/03/2017
Mensagens
1
Reputação
0
Pontos de reações
4
Pontos
12
Oi queridos!
Compartilho com vcs um relato singelo e, como qualquer outro, longe de ser preciso e completo.

Relatos etnogênicos - 13/03/2021 do calendário gregoriano – 3° experiência de 2021

Neste dia, passei o período da tarde arrumando meu set acolhedor na sala de estar, primando pelo conforto físico. Coloquei no chão um tapete grande e algumas almofadas espalhadas, defronte, uma poltrona reclinável com um travesseiro e só, pareceu o suficiente. Havia decorado o ambiente com artefatos bonitos e estimados, objetos para poder interagir e outros para poder expressar qualquer impulso artístico espontâneo. Muitas plantas, luz de diversas cores, notebook, caixa de som com uma playlist planejada e alimentos - bastante água.

22:00 - Pré-ingestão (notas)

“Hoje não será um relato usual. Vou ingerir 5gr de cubensis desidratados e recém colhidos. Desta vez, tendo em mente uma perspectiva nova: experiência não dual.

Estou lendo o livro: Entheogenic Liberation: Unraveling the Enigma of Nonduality with 5-MeO-DMT by Martin W Ball, o qual descreve um estado não dual de experiência empírica através do consumo de psicodélicos, em especial 5-Meo-DMT.

Do pouco que li, identifiquei muitos aspectos semelhantes da experiência proporcionada pela psilocibina que contemplam a descrição desse “estado” não-dual. Para mim, isso geralmente acontece no “ápice” dos efeitos de uma dose considerável (>4gr). É como se a percepção dualística fosse obliterada por um instante dando espaço a um panorama emergente intrinsecamente sensorial, um espaço informacional, ou, talvez, uma amplificação dos sentidos que dá a impressão de integração. Nesse momento, é difícil distinguir os limites do próprio corpo no espaço ambiente, parece que ele está imerso em tudo - relato bem comum, inclusive. É aqui que a não-dualidade acontece, julgo. Nesse momento de “unificação” o visual é incrivelmente fantástico e há sons dentro da minha cabeça que parecem estar girando sob o efeito Doppler, simultaneamente, toda alteração dos sentidos compõem a experiência não-dual. Tenho a incerteza de achar que esses sons intrínsecos são fenômenos da psilocibina interagindo com os receptores do cérebro, ou, talvez, por uma perspectiva metafísica, seja a comunicação direta dos cubes, uma vez que esses sons costumam ser imbuídos de grandes significados. Após esse breve "estado", que dura em média 30 min, decorre a ressurgimento das estruturas do ego (memórias/identidade/projeções/fantasias/ideias, temores, etc). Esse conteúdo psíquico pessoal começa vagarosamente se interpor na experiência. Tudo é reavaliado, mas nem tudo é transformado, como o autor afirma: O ego é forte e suas estruturas rígidas, ele continuará a existir quase inalterável. Para mim, é sempre assim. Um voo na unicidade transcendental expansiva seguida de queda no íntimo da psique.

Acredito que minha intenção nesta noite seja avaliar algumas concepções mentais e tentar experimentar a não-dualidade, mesmo que por um momento. Quero também pôr em pauta fatos próximos que irão moldar parte da minha rotina daqui em diante, como o início das aulas e o trabalho, por exemplo. No entanto, talvez meu foco principal seja sondar as identificações do ego e as possibilidades de expressão e criar nesse espaço algum recurso para aplicar na vida cotidiana. A exploração dual acaba sendo inevitável e há valor nisso, apenas espero não ficar preso em noções confusas sobre o desabrochar da experiência.

Portanto, abordo essa experiência de coração aberto e sem a atitude de querer controlar a dinâmica com meus objetivos e pautas, que seja orgânico. Vou direcionar, na metade da experiência, tópicos de meditação e contemplação, uma espécie de “solução de problemas”. Quero desmantelar também, quem sabe, as origens do comportamento violento arraigado na minha personalidade, já tenho referências para usar nessa investigação, mas prefiro explorar, nesse caso, minhas memórias afetivas.

Está quase na hora programada (23:00), há música popular tocando aqui perto, estamos em lock down e isso constitui uma aglomeração. Essa vibração sonora é um estímulo para eu sentir aversão e quero evitar nutrir esse sentimento. A polícia não é efetiva aqui, não verifica a denúncia, até porque não sei ao certo onde está acontecendo esse encontro. De qualquer modo, torço para acabar em breve para eu poder me concentrar e me entregar a experiência com os maravilhosos cubes. Até logo!”
(23:30 - Ingestão)

6:00 da manhã do dia seguinte, primeiro relato ainda sob efeitos moderados.

“Tudo está, literalmente, interligado. Eu sou Tudo. A vida é um constante reciclar. É preciso manter a confiança no fluir da vida. Estamos (vida), apesar dos comportamentos destrutivos e confusos, num mútuo apoio de relações, confiar e entregar ao fluir orgânico do tempo. Nesse desenvolver, procure manter a saúde primordialmente, o restante não está sob seu controle, nem de ninguém. Navegue, sinta, reflita, pare e confie. O amor mantém as relações. O universo pulsa em cada manifestação, é inefável.

Às vezes, simplificar é o melhor caminho. Simplifique.

Sou muito grato por mais essa experiência. Se atente para o “grosseiro” do cotidiano, experimente. Ame mais, as posturas rígidas são comportamentos desgastantes, tente flexibilizar mais. Confie!”

16:00, após sono revigorante.

Descansei e me sinto de volta ao meu estado usual, contudo, estou de “ressaca”, exausto mentalmente.

O relato acima descreve o cerne da visão, a verdade última da realidade que contemplei. No entanto, há outros aspectos da experiência que gostaria de narrar aqui.

Em primeiro lugar, tive bons momentos iniciais. Gosto de ter um espelho no ambiente para poder me conhecer, me observar e explorar livres expressões. Faço isso na tentativa de desenvolver minha personalidade e descobrir qualidades novas. Sendo assim, dancei, gesticulei, fiz versos improvisados e desfrutei do Ser lindo e único que sou e que tão raramente vive. Percebo, cada vez mais, o poder da arte em manter o espírito altivo e grandioso e, percebo também, infelizmente, como a estrutura social limita esses momentos para aqueles que não nasceram adornados de privilégios e que precisam trocar muito do seu tempo de vida por trabalhos que lhe oferecem pouco para adquirir o mínimo necessário. A cultura é violenta para muitos, isso é um fato irrevogável.

Foi embarcando nesses pensamentos que passei a adentrar um mundo sombrio, múltiplas lembranças e imagens perturbadoras mostravam para mim a “loucura” da humanidade, porém, meu sentimento com relação a isso era de compaixão, porque independentemente de como os acontecimentos e os comportamentos ocorrem, há uma força maior que mantém o impulso vital pulsando, e não é antropocêntrico, isso se manifesta de infinitas formas. Percebi que tudo que existe é a expressão do cosmos, da unidade. Deus co-criando e conhecendo a si mesmo através de incontáveis focos, e isso não é novidade para ninguém. No entanto, criamos a dualidade! E a partir desse pensamento, meu sofrimento deslanchou.

Aconteceu num determinado momento, e isso foi inédito, de eu sentir um mal estar MUITO grande, fiquei desorientado, desesperado, com ânsia de vomito, a ponto de achar que iria morrer, literalmente. Era abafado, todos os estímulos desconfortáveis, a música ruidosa, o toque sensível, a respiração dura e os pensamentos ofuscantes, até mesmo a força da gravidade parecia esfarelar meus ossos de tão insuportável, tentei sair para o pátio, mas essa ideia me aterrorizou, foi então que tombei no chão para não enlouquecer, era sufocante, senti muito medo. Fiquei com a cabeça de baixo do notebook, que estava em cima de um banquinho, ouvia suas engrenagens rosnarem sem parar consumindo energia incessantemente, um cooler dava uma guinada acelerada a cada 10 segundos e isso me perturbava muito, porém estava imóvel no chão, definhando, meu corpo parecia ter o dobro do peso e ser muito frágil. Passei mais de uma hora nesse estado moribundo, encarando a morte de perto e interrogando-a. Mesmo assim, sou grato ao cooler barulhento, me fez compreender, de verdade, a energia elétrica, sua substância, e expandi essa compreensão para outras formas de energia e que sem elas não há vida, movimento, Ânima, afinal, somos um reator bioquímico constante e isso, por si só, é incrível. Em resumo, apesar dos múltiplos desconfortos agudos, mantive a calma por saber que iria passar, como sempre passou, em outras experiências. Ainda, nesse ínterim, pude ouvir nitidamente os insetos se locomovendo pela casa a uns bons metros de distância, foi surpreendente! Há muita vida orgânica ao nosso redor, o tempo todo.

Por fim, observei meu estado de saúde integral e constatei que estava com o organismo enfraquecido, má alimentação e pouca atividade física. Pensei, é imprescindível que eu cuide melhor dele (corpo), pois se assim for, há muito tempo de vida pela frente para discernimento e novas vivências valorosas e importantes. É difícil perceber as injustiças do mundo, todas as destruições colossais, mas o fluxo segue nessa direção e dificilmente mudará abruptamente para outros ideais, então, vou zelar pela minha segurança e saúde, seguir em frente trabalhando no ordinário, jogando as cartas do jogo social da melhor forma para poder contribuir significativamente, isso é compaixão e altruísmo. O ego é uma benção e uma maldição porque vive na dualidade, classificando, julgando, comparando, etc. Mas ele pode ser uma ferramenta poderosa para a liberação dos confins do sofrimento, e isso requer trabalho e estudo. Seja humilde, confie no cosmos e se organize, há muito a vivenciar.
Meu aprendizado de não dualismo é aceitar o cosmos na sua complexidade doce e amarga e seguir em frente confiante”​
 
Top