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Em Direção ao Sol Brilhante / Essa Tiazona do meu Lado sou Eu? (xp 95)

ExPoro

Enteogenista Apaixonado pela Vida
Cultivador confiável
14/04/2015
3,710
1
94
Como todas as experiências desse ano até a 95 (dia 22/05), a dosagem foi de 2 gramas secas, sempre com o exato mesmo setting: Pink Floyd (de Dark Side até Endless River) em casa com lanchinhos.

O COMEÇO DA ACEITAÇÃO DA SEPARAÇÃO - Em Direção ao Sol Brilhante

Eu estava me reconstruindo bem da minha separação, já havia conseguido com os cogumelos alcançar um estado de tranquilidade sobre mim, meus erros, sobre o mundo e tudo mais, que foram possibilitadas na experiência número 92 (Cadê a Minha Redenção? Psilocibina, Separação e Síndrome do Pânico (xp 92)).

Foi daquelas experiências em que o som de Pink Floyd não me remeteu a sentimentos de revolta pela fraude que sofri na minha aposentadoria, nem ao sofrimento da separação. Eu já tinha trabalhado nas xp 93 e 94, no álbum The Division Bell, que é um álbum conceitual sobre a separação de um casal com elementos sociais líricos aqui e ali, os sentimentos da vida a dois que tinha ficado pra trás. As seguintes citações remetem a etapas de desconstrução e impossibilidades de restabelecer a comunicação entre duas pessoas, ainda que se amem:
  • "what do you want from me?" (o que você quer de mim?) - o que diabos você quer de mim afinal???;
  • "she will take it back" (ela vai tomar de volta) - isso vai magoando sua parceira achando que não tem fundo, até ela voltar às rédeas de sua vida;
  • "Where were you when I was burned and broken / While the days slipped by from my window watching" (Onde você estava quando eu estava queimado e ferrado? / Enquanto os dias passavam, assistindo da minha janela) - abandonos emocionais sobre sofrimentos que causamos uns aos outros em uma relação e não assumimos a responsabilidade pelo concerto;
  • "The grass was greener / The light was brighter / With friends surrounded / The nights of wonder" ("a grama era mais verde / a luz era mais brilhante / cercado de amigos / As noites de maravilhas" - as memórias do passado bom, feliz, que não mais existem;
  • "I took a heavenly ride through our silence / I knew the moment had arrived / For killing the past and coming back to life / ... / And headed straight into the shining Sun" (Eu dei um passeio celestial através do nosso silêncio / Eu sabia que o momento havia chegado / De matar o passado e voltar à vida / ... / E segui direto em direção ao Sol brilhante) - que a felicidade, a promessa dela, está mesmo em seguir caminhos separados.
etc etc etc, não é o momento de me alongar muito nas profundas passagens do álbum de maturidade lírica do Pink Floyd, em que a esposa de David Gilmour, Polly Samsom, contribui com 7 das 11 letras ímpares do álbum. Gilmour sempre foi ótimo letrista de alto lirismo, mas definitivamente esse trabalho conjunto foi a um novo patamar.

Bem...

Nesse dia não chorei quando chegou nesse álbum - apesar de estar chorando muito enquanto digito essas palavras. O luto, a dor, começava a se tornar aceitação, sabe. As lágrimas até quiseram vir quando começou o instrumental que abre as faixas, mas eu ali fiz uma escolha: "já chorei muito, já chorei muito nas outras experiências quando entendi o conceito principal desse álbum, já lamentei meus erros, chegou a hora de seguir em frente, e ouvir esse álbum de uma forma diferente, não mais com dor, não em seu âmbito de sofrimento, mas em sua complexidade mais profunda, de uma certa esperança nas linhas, de que tudo segue, tudo muda, que às vezes a vida nos faz seguir adiante, que assim como ela merece seguir pra tentar ser feliz, eu também", e dali, eu me senti indo em direção ao Sol brilhante novamente. Não era mais apenas eu permitindo que minha ex fosse feliz indo embora, mas eu também me permitindo começar a sarar minhas feridas.

De fato, eu perdi muito do brilho em meus olhos na idade de 43 anos, não só por isso, mas pelo contraste entre os sonhos da juventude e os espinhos e erros até chegar à maturidade ("Why did we tell you then / You were always the golden boy then / And that you'd never lose that light in your eyes?" - Por que nós te dissemos então / Que você era sempre o queridinho naqueles tempos / E que você nunca perderia esse brilho nos seus olhos?), mas o dia... O dia não volta sempre a nascer? Sim. E aprendemos com os erros. Não há um momento da vida em que a partir dali em diante não há chances para melhoria, para a busca da felicidade e para a mudança, nem aos 20, aos 30, aos 40, imagino que sequer aos 80. De fato, só precisamos da chance de tentar, porque a vida sempre segue ("The endless river / forever and ever" - o rio eterno / para todo o sempre) no fluxo imparável do tempo e suas possibilidades infinitas.

Obs.: definitivamente este álbum possui hoje em dia um significado muito profundo desde quando o ouvi pela primeira vez em uma trip, em 2020 (The Endless River (xp 68)), e se tornou meu favorito atualmente. Até que seu conceito e tema falassem diretamente ao meu coração, o único álbum que me fez chorar do Pink Floyd (e ainda faz às vezes) tinha sido o The Final Cut, por toda a profundidade emocional da música The Gunners Dream e os sentimentos de Waters sobre a morte do pai na guerra. Equiparo a profundidade emocional de ambos os álbuns, sendo um no estilo Rogeriano de letra direta e profunda, e outro no estilo Gilmour-Polliano, de letras profundas de alto lirismo.​
Obs2.: nas experiências anteriores (93 e 94) eu não ficava superdepressivo também, apenas chorava muito, muito, muito, e isso depois liberava também uma catarse de felicidade que durava a experiência até o fim dela, ou entrar algum tema tenso na roda da consciência. Mas foi nessa que eu consegui me sentir seguir em frente e sequer chorar.​


ESSA TIAZONA DO MEU LADO SOU EU? Será que, mesmo eu sendo homem cisgênero fisicamente, mentalmente seria eu uma lésbica feliz??? Ou será que minha personalidade é dividida em dois sexos dentro de mim, mentalmente falando??? Ou seria isso apenas loucura de misturar maconha com cogumelos???​

Então, sobre o título acima: kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Loucura total. Esse evento mental também se deu na experiência 95, mas essa aparição começou na 93 e também na 94, em que meu emocional se fortalecia muito com o luto e a aceitação mais profunda da separação, dos meus erros e tudo mais. Agora o enfoque era feliz, muito feliz. E eu me sentia tão vivo, tão bem. Enquanto músicas mais explosivas tocavam, tudo que vinha sobre mim era vida, alegria, dança, soltar o corpo, ser sensual, ser eu mesmo, dar risadas, cantar junto, pular, e sorrir... Nossa, sorrir como se estivesse em um daqueles comerciais pra eventos de música eletrônica, dentes de fora, felicidade verdadeiras, de todos os músculos da face. Dançar e cantar olhando meio que pra cima, com a voz saindo com sorrisos transpassados no tom, no jeito. Alegria, alegria, ALEGRIA!!!

Nisso, eu juro... Eu sentia uma presença do meu lado esquerdo e atrás. Uma presença muito feminina, que apesar de estar ali e parecer uma outra pessoa, ainda assim se integrava à minha própria consciência e se movia exatamente como eu! Se eu pulava, ela pulava. Se eu esticava a mão, ela também. Se eu sorria, ela sorria junto. Era um espelhamento perfeito.

Eu demorei até notar, até visualizar sem precisar olhar pra trás uma mulher da mesma faixa etária que eu, com uma pegada muito Rita Lee de visual sabe, com aqueles óculos grandes e amarelos, um vestido florido claro hippie, cabelos meio cacheados e longos, esvoaçados, claramente uma sobrevivente ainda ativa da psicodelia dos anos 60 (referência a Medo e Delírio em Las Vegas), apesar de deslocada no espaço-tempo (porque ai deveria ter mais de 70), alguém alegre, feliz (gay no sentido literal em inglês), com a pele que demonstrava anos de doidera já... Talvez seria a minha pele se eu fosse mulher e tivesse usado tantas drogas quanto usei desde meus 15 anos? De fato, o tempo é muito generoso com nós homens...

Essa presença feminina... bem, eu sou bissexual, e essa presença feminina é uma parte profunda do meu eu, sim. Quando estou bravo e puto da vida, eu me assemelho a um cangaceiro, e falo inclusive como nordestino segurando uma peixeira; sou apavorante e extremamente violento, na verdade, algo que não me orgulho. Mas, quando estou feliz... Bem, é sempre quando estou feliz que sofro agressões e homofobias por parte dos homens, não todos os héteros, apenas os frágeis e homofóbicos.

E ali, naquele momento de diluição de ego, de exteriorização de parte do meu eu, pude ver uma mulher muito maneira, muito feliz, alguém que de fato não dá pra notar no meu dia a dia, mas que está lá. Está na minha forma de pensar o mundo e entender as mulheres, sempre esteve toda vez em minha vida em que jamais caí em qualquer manipulação feminina (tipo a "vozinha fingindo que tá mole" ou exibição de partes do corpo, isso tudo sempre me irritou demais, eu sempre li através das mulheres), e também nos momentos em que eu mesmo usei recursos tipicamente femininos pra manipular mulheres (obviamente tudo que não fosse mostrar decote e fazer vozinha kkkkkk), algo que também não me orgulho, mas me dava um sabor de revanchismo em nomes dos demais homens.

Há muito tempo que não a vejo mais, em experiências que tive depois, mas curti o que vi. Cheguei a me questionar sobre exatamente o que sou em muitos âmbitos, pra me entender melhor. Falei com pessoas que leram muito, e ninguém tem nada a me responder. Talvez eu seja uma das dezenas de gêneros que eu mesmo desconheço, além do bissexual cisgênero? Sei lá. Existem duas vozes em minha mente, uma masculina e uma feminina, e elas ficam se digladiando, e em algum momento a masculina venceu e tomou o corpo na formação fetal, me fazendo um homem cis bi ao invés de uma mulher trans bi? Sei lá.

Sei que essa dissociação é sobre mim e o que sou, e fiquei feliz, muito feliz, de aceitá-la e conhecê-la. E também de vê-la dançar tão feliz, ela lá, feliz por mim, que sou ela também, por estar eu aqui, agora, tão feliz da vida, naquele momento pelo menos, indo em direção ao Sol brilhante mais uma vez.

Por um tempo eu fiquei marolando... "Seria eu um homem cis com cérebro feminino de homem trans, resultando em um aparente homem cis mas cérebro feminino?" Kkkkkkkkkkkkkk Só que não. Meus reflexos são de homem, meu cérebro é de fato masculino. Mas fica aí essa viagem sem resposta, se é que precisa de resposta. Sou binário, mas mentalmente, não sinto que seja, pelo menos não quando estou sob efeito e muito feliz.

Essa foi uma revelação do somatório da maconha, que parei de usar, com o cogumelo. Não acho que voltarei a vê-la novamente. Mas sei que está aqui comigo, meu outro lado, meu lado feminino, que mesmo desaparecida em sua manifestação como avatar atrás de mim, integra meu eu e me torna este Ser capaz de compreender profundamente as necessidades das mulheres e, quando bem mentalmente na vida (algo que não rolou com minha ex), de fazê-las felizes na cama e no dia a dia de formas que pessoas vêm me contar o quão marcante elas disseram que fui, estabelecendo um "antes" e um "depois" em suas vidas - "Fulano sim é homem de verdade" é uma frase que já foi dita em rodas de amigos em que eu não estava, chegando até mim por amigos em comum.

O que dizer pra fechar? Que sigo diretamente em direção ao Sol brilhante mais uma vez, muito mais integrado ao valor que tenho de ser quem sou, me conhecendo e aceitando melhor.
 
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