"Dei cogumelos à minha mãe para que se abrisse sobre a morte do meu pai" (texto da internet)

ExPoro

Psiconauta Apaixonado. Enteogenista Floyd-Gospel.
Membro Ativo
A saúde envolve "um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades" (OMS). Lindo texto, traduzido e publicado em português europeu pelo sítio pensologosou.pt:

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‘Porque mos deste? Queres ver-me chorar?’

“Estás pronta, mãe?”

“Sim, claro, mas continuo sem perceber o que vão fazer…”

“Não te preocupes, apenas relaxa. Vão ajudar a sentires-te muito melhor. Aconteça o que acontecer, não te assustes. E diz o que te apetecer, não te abstenhas.”

É uma tarde no final do Outono em Missigauga, Ontario. Estou a visitar a minha mãe durante uns dias antes do seu voo, para uma visita ao Paquistão. É a sua segunda viagem para lá em menos de dois anos, o que não é comum para ela. Desde a morte do meu pai, há um ano, ela parece um pouco desorientada. O meu irmão e irmã também repararam numa mudança nela – fala constantemente sobre já não haver qualquer razão para ela viver pois é viúva. Diz-nos que não precisamos mais dela, que ninguém precisa dela, e que teria sido melhor se ela tivesse morrido em vez do nosso pai.

Está deprimida, mas não o admite, e isso começou a ter consequências na nossa pequena mas unida família. Eu percebo aquilo pelo qual ela está a passar. Também passei por algo semelhante depois da morte do meu pai. Não é comum nas famílias paquistanesas falar sobre as nossas dores e vulnerabilidades. Somos ensinados que a fraqueza é desagradável, que nunca nos devemos abrir verdadeiramente perante outras pessoas pois vão usar essa informação para nos deitar a baixo e magoar, inclusivamente à família. Isso também me foi ensinado, e a única razão pela qual me libertei desta mentalidade tóxica foi através da experiência com psicadélicos. Agora, quero ajudar a minha mãe a fazer o mesmo.

Estendo a minha mão e dou-lhe três cogumelos Psilocybe Cubensis – cogumelos mágicos – aproximadamente três gramas, no total. Convencê-la a fazer isto foi surpreendentemente fácil, ela nem sequer sabia que eram ilegais. Eu seria o seu espirito guia sóbrio.

“Sabem mal, Mãe. Mastiga-os e engole-os com a garrafa de água que trouxemos.”
Ela dá uma dentada e instantaneamente retrai-se.

“Fogo, são nojentos! ”

Comeu o resto com mais facilidade do que eu tinha previsto.

“Pronto, e agora? ”

“Agora, nada. Vamos dar um passeio. Não penses muito nisso.”

É um lindo dia de sol. Há um parque próximo de sua casa, para onde caminhamos. O meu irmão está em casa, e eu não quero a minha mãe “a viajar” com ele por perto; por vezes ele é um pouco crítico a respeito de pessoas tomarem “intoxicantes”, incluindo álcool. Caminhamos pelo parque durante cerca de 45 minutos, depois dos quais nos dirigimos a um Starbucks numa praça nas redondezas. Quis certificar-me que estávamos num espaço interior e confortável antes dos cogumelos lhe fazerem efeito.

Passámos por um canteiro de amores-perfeitos ao aproximarmo-nos do Starbucks. A minha mãe pára e olha para eles em silêncio durante alguns segundos.

“Estas flores são tão lindas”, disse ela suavemente.

À medida que nos aproximamos do Starbucks, ela olha para o céu, de olhos arregalados e boca aberta.

“Uau, o céu está tão azul! É sempre assim tão azul?”

Entrámos, e ela explode instantaneamente num ataque de riso.

“Hida, aquele homem, os sapatos dele! São tão vermelhos! ”

Referia-se a um dos clientes do Starbucks que usava uns ténis vermelhos da Nike. Os ténis são realmente bastante marcantes!

“Sim, são mesmo!”

Ela segura-me no braço, e eu examino-a rapidamente. As suas pupilas estão dilatadas e tem um enorme sorriso no seu rosto. Está ligeiramente trémula, e a sua respiração aumentou.

Está a “viajar”.

“Queres algo para beber, Mãe?”

“Eu só… Acho que preciso de me sentar. Podes trazer alguma coisa para nós? Pode ser algo doce!”

Vou buscar dois cafés lattes, e vamo-nos sentar no pátio; Quero que ela aprecie as cores. Somos os únicos no exterior, vamos para uma mesa no canto com vista para outro canteiro de flores. A minha mãe analisa a área em redor, como se visse tudo pela primeira vez. Sentamo-nos em silêncio por alguns minutos.

“Tens saudades do teu pai? “, pergunta ela, finalmente.

Antes que eu possa responder, ela continua.

“Sabes, eu não conhecia o meu pai. Ele morreu quando eu tinha apenas 16 anos. Mesmo quando ele era vivo, estava sempre a trabalhar. E a minha mãe nunca estava lá para mim. Com sete crianças e uma casa cheia de empregados, ninguém tinha tempo para mim. Tenho, definitivamente, um vazio de mãezinha na minha vida”, ela diz.

“Foi por isso que casei com o teu pai quando tinha 21 anos, eu não o amava realmente; Eu nem sequer sabia o que era o amor. Sentia que ninguém me queria por perto. A minha mãe e irmãos viam-me como um fardo. Mal podiam esperar que eu me casasse e partisse. Sabias que a minha irmã Asma casou-se com apenas 17 anos?”

E isto é quando a minha mãe, com 48 anos, pela primeira vez na sua vida se abre comigo sobre a sua infância e o trauma que sofreu ao crescer na sua família no Paquistão— Sexismo, vergonha, negligência e abuso sexual nas mãos dos seus irmãos. Eu escutei em silêncio enquanto ela contava os primeiros anos do seu casamento com o meu pai— infidelidade, abuso físico e verbal, chantagem e diversas separações. A maioria das coisas eu sei; outras não.

Ocasionalmente ela pára e olha para as flores, depois continua. Eu faço perguntas para manter a conversa, mas estou sobretudo a escutar. Depois de cerca de uma hora a falar, ela faz uma pausa.

Desliga-se um pouco por um bocado e pergunta, “Porque mos deste? Queres ver-me chorar?”

“Apetece-te chorar? Está tudo bem, se te apetecer.”

Ela desvia o olhar.

“Não me apetece chorar mais. Já chorei o suficiente na minha vida.”

Falamos mais um pouco. Ela explica porque é que nunca pôde deixar o meu pai pois, sem ele, não teríamos tido o estilo de vida que o seu dinheiro podia proporcionar. A família dela não estava disposta a apoiá-la; a sua mãe achava que traria vergonha à família se a sua filha se divorciasse com duas crianças pequenas e que, depois disso, ninguém se voltaria a casar com a minha mãe. Portanto, sem quaisquer recursos financeiros, trabalho ou ajuda da sua própria família, a minha mãe decidiu que a única opção era aguentar-se com o meu pai. Permaneceu, durante 25 anos num casamento, praticamente sem sexo, apenas para conseguir providenciar aos seus filhos os recursos que ela sabia que não conseguiria sozinha.

“Mãe, tenho de te perguntar— porque vais novamente ao Paquistão? O pai morreu, não precisas de continuar a fingir ser uma boa esposa. Queres realmente ver a tua família? Depois de tudo o que me contaste? Porquê? ”

Ela parece ter sido, genuinamente, apanhada de surpresa pelas minhas perguntas. Não me responde imediatamente, em vez disso cruza os seus braços sobre o seu peito e olha para mim perplexa.

“Eu… Não sei porque vou,” admite, finalmente, “Estou tão perdida neste momento, não tenho ideia do que fazer com a minha vida.”

Falamos durante mais algumas horas, mudando-nos, eventualmente, para um restaurante Wild Wings, para jantar.

A minha mãe está agora bastante sóbria, mas com uma disposição melhor que a que tinha antes de ingerir os cogumelos. Está a sorrir e a contar histórias sobre os seus primeiros anos de jovem mãe e a desenvencilhar-se sozinha. Reconhece como construiu toda a sua identidade ao ser mãe e ao providenciar a mim e aos meus irmãos todos os recursos que podia, para que fossemos bem-sucedidos. Isso é parte do motivo porque está tão perdida agora— somos todos crescidos e estamos a viver as nossas próprias vidas, e ela foi deixada a tratar das coisas sozinha, mais uma vez.

“Mãe, não estás sozinha. Espero que saibas isso. Foi-te dada uma segunda chance na vida e apenas queremos que vivas o estilo de vida que sempre quiseste. Podes namorar, apaixonar-te, casar, viajar pelo mundo— o que quiseres, nós apoiamos-te!”. Asseguro-lhe.

“Fogo, não me quero voltar a casar! Já conclui essa parte da minha vida!”, responde com um ar enjoado na sua cara.

Quando estamos a sair, a minha mãe pergunta, “Então também fizeste isto antes, não fizeste? O que aconteceu quando os comeste?”

Hesitei em responder. Existem muitas coisas que não lhe contei acerca da forma como a minha infância me perturbou na cabeça, e como eu tenho lidado com tudo isso através das micro-doses. Ver os meus pais a discutir e ver o meu pai bater na minha mãe traumatizou-me e prejudicou a minha relação com os homens, levou anos para me reconciliar com o passado. Quero partilhar estas coisas com ela, mas não agora. Não quando ela está com boa disposição.

Eu sei que a disposição é fugaz, mas quero que ela se mantenha assim, tal como estava naquele banco apenas há umas horas, descontraída, de olhos fechados.

“Ó meu Deus,” disse ela. “O céu sempre foi assim tão azul?”​


Fonte: http://pensologosou.pt/substancias-psicoactivas/psilocibina/dei-cogumelos-a-minha-mae-para-que-se-abrisse-sobre-a-morte-do-meu-pai/
 
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