- 14/04/2015
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Aaaaaaaaaah, que recorte da minha vida devo fazer agora? Há muito tempo meus relatos não são apenas sobre as experiências em si, mas de certa forma um acompanhamento sobre a minha vida. Então, vamos lá.
Eu me separei dia 7 de Março de 26, o fim de um casamento de mais de 12 anos e uma filha nascida dele. Na verdade, eu entendi que estava separado nesta data. Para minha ex, a separação teria ocorrida em uma certa conversa ocorrida entre outubro ou novembro de 2025. É claro que, para que eu sequer reparasse que havia terminado, o casamento já estava acabado há muito mais tempo. Eu diria que desde 2020 já havia começado a ir de ralo, com momentos bons aqui e ali, e um desejo de querer fazer dar certo, que no fim só se mostrou uma tortura pra ambos. E com meu quadro psiquiátrico surtado de 2023 e depressivo crônico de 2024-2025, tudo afundou de vez. Só posso dizer que o que há de amor em mim por ela, e há bastante, me faz apenas querer dar a ela a liberdade de ir embora e tentar se reconstruir sem mim, que a fiz sofrer tanto.
E não era que eu não a amava, nem que eu não a reconhecia. E isso me enlouquecia mais ainda quando vi que tinha terminado mesmo. Eu assumi pra mim todo o peso do término, todos os erros, todas as falhas. Uma pessoa perfeita como ela ao meu lado, e eu não fui capaz de dar a ela tudo que ela mereceria. Eu queria de verdade estar com ela até o fim da minha vida, eu a reconhecia como amor da minha vida. Ainda assim... mesmo a amando tanto, eu não era capaz de mudar, de ser melhor, de abrir mão de egoísmos, de abusar dos sentimentos dela para obter o que eu queria, de fazer pesar sobre ela excessivamente coisas que poderíamos dividir o peso.
Sim, tudo dito assim de forma abstrata... quem lê fica entre "você é um merda" ou "todos erram", mas sigamos...
Ao longo das semanas que se passaram em seguida, eu fui aprofundando mais e mais e mais e mais e mais a minha responsabilidade sobre meu casamento ter dado errado. Apesar do casamento ser uma dança de duas pessoas, estava claro pra mim que a primeira ofensa, que as primeiras falhas graves foram minhas. Então eu poderia mesmo exigir dela "não soube me perdoar", ou "não soube esquecer", ou "não soube ser melhor"? Bem...
Esses sentimentos iam me corroendo, eu quase me veria como um lixo, não fosse a formulação ética que eu tinha feito ao longo de 2025 pra tentar sobreviver à depressão crônica induzida pelas medicações em 2024, e que me faziam ver tudo e todos tão ruins... que pra limpar minha alma um pouco, cheguei à conclusão:
Essa frase, que não foi inventada por mim mas nesse momento foi cristalizada em mim, na verdade se foca em perdoar pessoas que fizeram mal a mim. E por fim, ter sido generoso com quem foi ruim comigo me ajudou a ser relativamente generoso comigo quando eu me vi sendo ruim com alguém que não merecia. Mas não era o bastante.
Enfim, de volta ao relato, o peso estava grande demais, e eu podia lidar, porque por mais que eu descrevesse um monstro, no fim a conclusão era "todas as pessoas são boas".
Mas aquilo doía, doía, doía... o fim da família, o afastamento de uma filha que irá pro interior de outro Estado, não ter a companhia da única mulher que realmente me amou nessa vida e me fez finalmente entender que é possível ser feliz a dois, que eu tenho valor, que me dava um sonho... E eu devolvi pra ela um pesadelo.
Sem chance de redenção. Não importa quem eu conheça, não importa com quem eu esteja - e isso é algo que ainda penso - eu não conseguirei ser melhor do que já sou, nem mudar nada por ninguém. Apesar de sempre repetir o mantra "todas as pessoas são boas", eu só aprofundava mais e mais meus erros. De alguma forma, parecia esquizofrenia repetir o mantra e em seguida listar tudo de errado que fiz. O peso era meu, todo meu, só meu. E a única solução humana é liberta-la, pro resto da vida. Não há redenção.
Esse é o fundo emocional.
No resto da vida, o trabalho 11 dias seguidos com 3 dias de descanso me exauria mais ainda emocional e fisicamente. O isolamento de todos os amigos devido ao meu emocional corrompido pelas medicações me mantinha com tudo preso dentro de mim. Sem tempo, sem dinheiro, sem conversa, sem apoio, sozinho. No dia em que ia finalmente fazer a imersão após o término, eu adoeci e não pude fazer. Adoecido, arrumei confusão com um vizinho. Após arrumar essa confusão, com essa pilha de estresse, sono, cansaço, doença, solidão, dor existencial, fiquei limítrofe, as psicoses de violência voltaram fortes e... tive uma crise de pânico, mas não como as pessoas costumam ter.
É uma crise de pânico diferente, em que o corpo não segue a mente. Foi a causa da minha doença que me aposentou anos atrás, junto com psicoses de violência. É extremamente aguda e da última vez havia durado 4 anos até passar... quatro anos!!! Não se trata aqui de tomar remédio, de ter medo... enfim, nada desse pânico que normalmente as pessoas têm. Acho que o nome sequer devia ser pânico, que o buraco era muito mais embaixo.
Eu fiquei absolutamente desesperado nesse momento. Não pelo pânico em si, mas porque aquilo significava um fim de linha pra mim. Minha tentativa de voltar ao serviço acabava ali, eu teria que aceitar minha invalidez pelo resto da vida... 9 anos depois, eu ainda não estava curado, a doença de trabalho que me havia sido negada pela fraude da junta médica que me aposentou em conluio com a chefia que havia me adoecido retirando 90%¨da minha renda e todos os meus direitos... bem, ela estaria comigo até o fim dos meus dias, de fato.
Isso foi numa terça a noite. Eu tentei me acalmar, enquanto ela estabelecia, com cigarro e álcool pra relaxar pra dormir, e consegui dormir. Mas, ao acordar na quarta-feira, estava lá o sintoma: o peito explodindo, o coração batendo com uma força ímpar, o estômago querendo sair pela boca, a pressão alta, e a certeza de que não teria remédio que pudesse parar aquilo, uma vez que desde que meu cérebro foi frito pelas medicações de 2024 eu não posso mais tomar nenhum remédio psiquiátrico sem sentir dores profundas e ser tomado por psicoses de dor e violência.
Nessa hora eu fiz uma jogada inesperada pra mim...
"Caralho, eu não posso tomar o rivotril porque senão eu viro um monstro... então só me resta tentar a psilocibina, que possui um forte efeito ansiolítico ao fim da trip... e rezar pra ver se desfaço o gatilho e consigo evitar que o pânico se estabeleça por mais alguns anos ativo".
Sem qualquer preparação, abri o armário, peguei 1 g de cogumelos secos e comi. Aguardei os efeitos. Notei que os efeitos não estavam fortes o suficiente pra afastar o pânico fisiológico, e tomei mais 1 g. E acho que em algum momento comi mais 1 grama também. Pronto... a partir daquele momento, tudo que eu tava pensando de errado, tudo que tinha sido acumulado no emocional, começou a submergir de forma a me limpar.
Disclaimer ==> não recomendo a ninguém tomar cogumelo em síndrome de pânico, ok? Caso não tenham entendido, meu pânico é diferente, ele não é mental, eu não sinto medo, eu não sinto raiva, eu não sinto nada emocional. Meu pânico é puramente fisiológico, ou seja, meu set não estava afetado pelo pânico - meu set era o que causava ele. O objetivo da psilocibina era colocar um ansiolítico pra dentro e só. Se você não tem problemas com rivotril, vá tomar rivotril!
A Limpeza da Sujeira
De fato, a psilocibina tem um poderoso efeito ansiolítico, mas não foi nem isso o maior diferencial.
Durante aquelas horas da tarde de quarta-feira, toda a sujeira emocional foi jogada pra fora. Todo o peso de ser o pior ser Humano da Terra, de me sentir extremamente mal por errar, começaram a se desfazer.
A psilocibina conseguiu fazer por mim, nessa experiência número 92, algo que a experiência número 1 também tinha feito: valer por 5 anos de tratamento psicológico.
Eu fui de "eu sou errado em ter feito isso" para "e daí se eu errei? Todos erram! Que eu erre mais!"
"Mas que droga eu não tenho que me cobrar porra nenhuma"
Eu consegui sair de um extremo do pêndulo, que não é saudável, para outro, que também não é saudável; contudo, naquele momento, eu precisava ir pro outro lado do pêndulo! Eu precisava pensar "errei mesmo, e daí? Que se exploda! Erro mais então!", eu precisava me aliviar, eu precisava abrir mão de ser responsável. Eu ri e me assumi um escroto, com o direito de ser escroto, com o direito de ser egoísta, com o direito de agir mal! E daí??? Por que não?
Foda-se, todos erram. E se não for erro, sou eu. "Eu jamais erro", dizia com um sorriso de deboche.
Sim, eu pisei em locais mentais muito perigosos, mas isso ia me aliviando, me limpando, me isentando. E tudo que eu precisava naquele momento era isenção. Não perdão, vejam bem! Não perdão! Mas isenção. "Não fiz nada, nada fiz; se fiz, gostei, tenho direito de fazer; faria de novo; amo o que fiz; que se exploda".
Eu sabia que essas formulações não poderiam se sustentar por muito tempo em minha vida, pois também não levam a nada, mas as mantive de forma fraca por mais umas 2 semanas, até a experiência de cogumelo seguinte. E naquele momento da trip, pude mesmo me aliviar, e devagar a síndrome do pânico começou a ser apagada de meu corpo.
Em outras palavras... o cogumelo conseguiu detonar em apenas uma tarde um ataque de pânico que, quando tive o mesmo há 9 anos atrás, tinha sido contido em 4 anos por medicações psiquiátricas comuns, pois eu o usei bem em cima do começo do pânico, antes que suas raízes emocionais se espalhassem mais e o tornassem mais complexo. Isso demonstra o poder dos cogumelos para curar doenças da alma. Mas, como disse, meu pânico é diferente, é puramente fisiológico; não tome cogumelos se estiver com o pânico tradicional de sentimentos de medo, pavor etc. Meu pânico fisiológico vinha por questões emocionais, que o cogumelo foi capaz de expor, reciclar e regurgitar.
Devagar durante a semana as formulações do tipo "que se foda eu nunca erro quem erram são os outros que não gostam do que eu fiz" foram reduzindo, e o pêndulo foi caminhando de volta, mas não mais pro outro extremo, e sim pro meio. Finalmente, após quase 1 mês do término, eu pude pensar:
...
Eu queria muito ter a minha redenção quando sentia toda aquela carga de culpa. Hoje penso que o caminho dessa tal redenção é tão longo e tão profundo, que decerto ele se perca em múltiplas vidas. Aprender a ser um marido perfeito, logo eu que sempre achei que seria um, de forma crua está muito além das minhas capacidades.
Hoje caio na não monogamia. Um recanto em que amores são vividos enquanto são bons. Em que ninguém exige nada de ninguém, ninguém muda por ninguém. Não há compromisso, apenas pura entrega - mas sempre com responsabilidade afetiva. Duas pessoas que entram livres e saem livres. Onde eu não precise me enganar que posso mudar qualquer coisa em mim por alguém, ao mesmo tempo em que nada exijo das pessoas que estiverem comigo. Ninguém é obrigado a me completar, nem eu completo ninguém. Não há um "para todo sempre", a menos que efetivamente seja até o fim.
Minha "redenção" é aprender com meus erros... Ou seja, não ser monogâmico nem poligâmico, não casar, não vincular além de uma relação inominada: buscar relações verdadeiras, leves e profundas, que são o que são enquanto forem. Minha redenção é não impor mais a ninguém sobre mim, é não iludir ninguém que eu possa melhorar em qualquer coisa além do que já sou. Quero gozar e fazer gozar, amar e ser amado; mas sempre livres, eu, tu, eles e elas.
Mas não desisto de amar, sabe. Só acho que posso aprender a amar melhor, tirando do jogo a doença da -gamia, ou seja, de possuir outro ser humano. Sempre fui poliamoroso, então a não monogamia se encaixa como uma luva.
Eu me separei dia 7 de Março de 26, o fim de um casamento de mais de 12 anos e uma filha nascida dele. Na verdade, eu entendi que estava separado nesta data. Para minha ex, a separação teria ocorrida em uma certa conversa ocorrida entre outubro ou novembro de 2025. É claro que, para que eu sequer reparasse que havia terminado, o casamento já estava acabado há muito mais tempo. Eu diria que desde 2020 já havia começado a ir de ralo, com momentos bons aqui e ali, e um desejo de querer fazer dar certo, que no fim só se mostrou uma tortura pra ambos. E com meu quadro psiquiátrico surtado de 2023 e depressivo crônico de 2024-2025, tudo afundou de vez. Só posso dizer que o que há de amor em mim por ela, e há bastante, me faz apenas querer dar a ela a liberdade de ir embora e tentar se reconstruir sem mim, que a fiz sofrer tanto.
E não era que eu não a amava, nem que eu não a reconhecia. E isso me enlouquecia mais ainda quando vi que tinha terminado mesmo. Eu assumi pra mim todo o peso do término, todos os erros, todas as falhas. Uma pessoa perfeita como ela ao meu lado, e eu não fui capaz de dar a ela tudo que ela mereceria. Eu queria de verdade estar com ela até o fim da minha vida, eu a reconhecia como amor da minha vida. Ainda assim... mesmo a amando tanto, eu não era capaz de mudar, de ser melhor, de abrir mão de egoísmos, de abusar dos sentimentos dela para obter o que eu queria, de fazer pesar sobre ela excessivamente coisas que poderíamos dividir o peso.
Sim, tudo dito assim de forma abstrata... quem lê fica entre "você é um merda" ou "todos erram", mas sigamos...
Ao longo das semanas que se passaram em seguida, eu fui aprofundando mais e mais e mais e mais e mais a minha responsabilidade sobre meu casamento ter dado errado. Apesar do casamento ser uma dança de duas pessoas, estava claro pra mim que a primeira ofensa, que as primeiras falhas graves foram minhas. Então eu poderia mesmo exigir dela "não soube me perdoar", ou "não soube esquecer", ou "não soube ser melhor"? Bem...
Esses sentimentos iam me corroendo, eu quase me veria como um lixo, não fosse a formulação ética que eu tinha feito ao longo de 2025 pra tentar sobreviver à depressão crônica induzida pelas medicações em 2024, e que me faziam ver tudo e todos tão ruins... que pra limpar minha alma um pouco, cheguei à conclusão:
"Todas as pessoas são boas, que às vezes cometem maldades"
Essa frase, que não foi inventada por mim mas nesse momento foi cristalizada em mim, na verdade se foca em perdoar pessoas que fizeram mal a mim. E por fim, ter sido generoso com quem foi ruim comigo me ajudou a ser relativamente generoso comigo quando eu me vi sendo ruim com alguém que não merecia. Mas não era o bastante.
Naqueles dias pude inclusive entender que pessoas que nos amam podem verdadeiramente nos fazer mal de forma profunda sem querer, sem intenção; de fato, sendo quem são, mas assim são. Pude me sentir mais disposto a compreender a limitação de uma ex-amiga/amante (com a qual não falo há quase 4 anos) que me fez muito mal por duas décadas, que dizia me amar, e que no entanto me deixou em frangalhos emocionais tão profundos tantas e tantas vezes que não sei quantas décadas demorarei para superar (é sobre ela o relato Um Sorriso de Amor após a Destruição (xp 72 e 73)), se um dia eu superar. Mas, sim, dessa vez eu me vi no papel dela, só que com a minha esposa; eu a amava tanto, tanto, tanto, e no entanto a destruí tão profundamente de um jeito que eu quase me pergunto às vezes "mas o que foi que eu fiz?", como quase dizendo "não fiz nada com você".
Fora que nos anos de 2024 e 2025 fui capaz de entender o que significa ser um bipolar, já que fiquei preso na fase depressiva crônica, e julgar menos ela também por ter isso e como influenciava as ações dela comigo, já que eu mesmo passei a agir como ela.
Então... eu a perdoo, sabe. E sei que ela frequenta esse fórum também, então se for ler... saiba, hoje entendo que é possível amar demais alguém, e ao mesmo tempo destruir essa pessoa, e no fim ainda pensar "mas eu não fiz nada demais". A única coisa que resta então é deixar a pessoa ir embora, se afastar. O único gesto de amor que pessoas toxicamente neurodivergentes como eu podem fazer por quem amam é as deixar ir embora. Não nos cabe medir o sofrimento de quem destruímos, nos cabe apenas entender que se a pessoa se queixa, então é porque a fizemos sofrer.
Enfim, de volta ao relato, o peso estava grande demais, e eu podia lidar, porque por mais que eu descrevesse um monstro, no fim a conclusão era "todas as pessoas são boas".
Mas aquilo doía, doía, doía... o fim da família, o afastamento de uma filha que irá pro interior de outro Estado, não ter a companhia da única mulher que realmente me amou nessa vida e me fez finalmente entender que é possível ser feliz a dois, que eu tenho valor, que me dava um sonho... E eu devolvi pra ela um pesadelo.
Sem chance de redenção. Não importa quem eu conheça, não importa com quem eu esteja - e isso é algo que ainda penso - eu não conseguirei ser melhor do que já sou, nem mudar nada por ninguém. Apesar de sempre repetir o mantra "todas as pessoas são boas", eu só aprofundava mais e mais meus erros. De alguma forma, parecia esquizofrenia repetir o mantra e em seguida listar tudo de errado que fiz. O peso era meu, todo meu, só meu. E a única solução humana é liberta-la, pro resto da vida. Não há redenção.
Esse é o fundo emocional.
No resto da vida, o trabalho 11 dias seguidos com 3 dias de descanso me exauria mais ainda emocional e fisicamente. O isolamento de todos os amigos devido ao meu emocional corrompido pelas medicações me mantinha com tudo preso dentro de mim. Sem tempo, sem dinheiro, sem conversa, sem apoio, sozinho. No dia em que ia finalmente fazer a imersão após o término, eu adoeci e não pude fazer. Adoecido, arrumei confusão com um vizinho. Após arrumar essa confusão, com essa pilha de estresse, sono, cansaço, doença, solidão, dor existencial, fiquei limítrofe, as psicoses de violência voltaram fortes e... tive uma crise de pânico, mas não como as pessoas costumam ter.
É uma crise de pânico diferente, em que o corpo não segue a mente. Foi a causa da minha doença que me aposentou anos atrás, junto com psicoses de violência. É extremamente aguda e da última vez havia durado 4 anos até passar... quatro anos!!! Não se trata aqui de tomar remédio, de ter medo... enfim, nada desse pânico que normalmente as pessoas têm. Acho que o nome sequer devia ser pânico, que o buraco era muito mais embaixo.
Eu fiquei absolutamente desesperado nesse momento. Não pelo pânico em si, mas porque aquilo significava um fim de linha pra mim. Minha tentativa de voltar ao serviço acabava ali, eu teria que aceitar minha invalidez pelo resto da vida... 9 anos depois, eu ainda não estava curado, a doença de trabalho que me havia sido negada pela fraude da junta médica que me aposentou em conluio com a chefia que havia me adoecido retirando 90%¨da minha renda e todos os meus direitos... bem, ela estaria comigo até o fim dos meus dias, de fato.
Isso foi numa terça a noite. Eu tentei me acalmar, enquanto ela estabelecia, com cigarro e álcool pra relaxar pra dormir, e consegui dormir. Mas, ao acordar na quarta-feira, estava lá o sintoma: o peito explodindo, o coração batendo com uma força ímpar, o estômago querendo sair pela boca, a pressão alta, e a certeza de que não teria remédio que pudesse parar aquilo, uma vez que desde que meu cérebro foi frito pelas medicações de 2024 eu não posso mais tomar nenhum remédio psiquiátrico sem sentir dores profundas e ser tomado por psicoses de dor e violência.
Nessa hora eu fiz uma jogada inesperada pra mim...
"Caralho, eu não posso tomar o rivotril porque senão eu viro um monstro... então só me resta tentar a psilocibina, que possui um forte efeito ansiolítico ao fim da trip... e rezar pra ver se desfaço o gatilho e consigo evitar que o pânico se estabeleça por mais alguns anos ativo".
Sem qualquer preparação, abri o armário, peguei 1 g de cogumelos secos e comi. Aguardei os efeitos. Notei que os efeitos não estavam fortes o suficiente pra afastar o pânico fisiológico, e tomei mais 1 g. E acho que em algum momento comi mais 1 grama também. Pronto... a partir daquele momento, tudo que eu tava pensando de errado, tudo que tinha sido acumulado no emocional, começou a submergir de forma a me limpar.
Disclaimer ==> não recomendo a ninguém tomar cogumelo em síndrome de pânico, ok? Caso não tenham entendido, meu pânico é diferente, ele não é mental, eu não sinto medo, eu não sinto raiva, eu não sinto nada emocional. Meu pânico é puramente fisiológico, ou seja, meu set não estava afetado pelo pânico - meu set era o que causava ele. O objetivo da psilocibina era colocar um ansiolítico pra dentro e só. Se você não tem problemas com rivotril, vá tomar rivotril!
A Limpeza da Sujeira
De fato, a psilocibina tem um poderoso efeito ansiolítico, mas não foi nem isso o maior diferencial.
Durante aquelas horas da tarde de quarta-feira, toda a sujeira emocional foi jogada pra fora. Todo o peso de ser o pior ser Humano da Terra, de me sentir extremamente mal por errar, começaram a se desfazer.
A psilocibina conseguiu fazer por mim, nessa experiência número 92, algo que a experiência número 1 também tinha feito: valer por 5 anos de tratamento psicológico.
Eu fui de "eu sou errado em ter feito isso" para "e daí se eu errei? Todos erram! Que eu erre mais!"
"Mas que droga eu não tenho que me cobrar porra nenhuma"
Eu consegui sair de um extremo do pêndulo, que não é saudável, para outro, que também não é saudável; contudo, naquele momento, eu precisava ir pro outro lado do pêndulo! Eu precisava pensar "errei mesmo, e daí? Que se exploda! Erro mais então!", eu precisava me aliviar, eu precisava abrir mão de ser responsável. Eu ri e me assumi um escroto, com o direito de ser escroto, com o direito de ser egoísta, com o direito de agir mal! E daí??? Por que não?
Foda-se, todos erram. E se não for erro, sou eu. "Eu jamais erro", dizia com um sorriso de deboche.
Sim, eu pisei em locais mentais muito perigosos, mas isso ia me aliviando, me limpando, me isentando. E tudo que eu precisava naquele momento era isenção. Não perdão, vejam bem! Não perdão! Mas isenção. "Não fiz nada, nada fiz; se fiz, gostei, tenho direito de fazer; faria de novo; amo o que fiz; que se exploda".
Eu sabia que essas formulações não poderiam se sustentar por muito tempo em minha vida, pois também não levam a nada, mas as mantive de forma fraca por mais umas 2 semanas, até a experiência de cogumelo seguinte. E naquele momento da trip, pude mesmo me aliviar, e devagar a síndrome do pânico começou a ser apagada de meu corpo.
Em outras palavras... o cogumelo conseguiu detonar em apenas uma tarde um ataque de pânico que, quando tive o mesmo há 9 anos atrás, tinha sido contido em 4 anos por medicações psiquiátricas comuns, pois eu o usei bem em cima do começo do pânico, antes que suas raízes emocionais se espalhassem mais e o tornassem mais complexo. Isso demonstra o poder dos cogumelos para curar doenças da alma. Mas, como disse, meu pânico é diferente, é puramente fisiológico; não tome cogumelos se estiver com o pânico tradicional de sentimentos de medo, pavor etc. Meu pânico fisiológico vinha por questões emocionais, que o cogumelo foi capaz de expor, reciclar e regurgitar.
Devagar durante a semana as formulações do tipo "que se foda eu nunca erro quem erram são os outros que não gostam do que eu fiz" foram reduzindo, e o pêndulo foi caminhando de volta, mas não mais pro outro extremo, e sim pro meio. Finalmente, após quase 1 mês do término, eu pude pensar:
"Realmente, não se trata aqui de quem jogou a primeira pedra, ou de quem tomou a primeira pedrada e não foi capaz de perdoar... Não é sobre isso. É só que não deu certo. O casamento é afinal uma dança de duas pessoas, e às vezes a vida faz com quem não aconteça, seja por erros evitáveis, seja por erros inevitáveis. Aconteceu, deu errado, errei muito, assim como ela; mas posso aprender sim, posso seguir em frente, posso ser e fazer feliz no futuro"
...
Eu queria muito ter a minha redenção quando sentia toda aquela carga de culpa. Hoje penso que o caminho dessa tal redenção é tão longo e tão profundo, que decerto ele se perca em múltiplas vidas. Aprender a ser um marido perfeito, logo eu que sempre achei que seria um, de forma crua está muito além das minhas capacidades.
Hoje caio na não monogamia. Um recanto em que amores são vividos enquanto são bons. Em que ninguém exige nada de ninguém, ninguém muda por ninguém. Não há compromisso, apenas pura entrega - mas sempre com responsabilidade afetiva. Duas pessoas que entram livres e saem livres. Onde eu não precise me enganar que posso mudar qualquer coisa em mim por alguém, ao mesmo tempo em que nada exijo das pessoas que estiverem comigo. Ninguém é obrigado a me completar, nem eu completo ninguém. Não há um "para todo sempre", a menos que efetivamente seja até o fim.
Minha "redenção" é aprender com meus erros... Ou seja, não ser monogâmico nem poligâmico, não casar, não vincular além de uma relação inominada: buscar relações verdadeiras, leves e profundas, que são o que são enquanto forem. Minha redenção é não impor mais a ninguém sobre mim, é não iludir ninguém que eu possa melhorar em qualquer coisa além do que já sou. Quero gozar e fazer gozar, amar e ser amado; mas sempre livres, eu, tu, eles e elas.
Mas não desisto de amar, sabe. Só acho que posso aprender a amar melhor, tirando do jogo a doença da -gamia, ou seja, de possuir outro ser humano. Sempre fui poliamoroso, então a não monogamia se encaixa como uma luva.
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