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Aqui discutimos micologia amadora e enteogenia.

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Aprendiz de Feiticeiro - 1ª Dose Heroica, 14g secas (xp 89)

ExPoro

Enteogenista Apaixonado pela Vida
Cultivador confiável
14/04/2015
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Contexto


Demorou quase 11 anos e 90 imersões de cogumelos para finalmente eu tomar "coragem" e ir além dos 8 gramas secas, chegando aos 10, passando deles. A dosagem total foi de 14g secas. O motivo que me moveu a isso foi a urgência de ter que acertar minha bioquímica cerebral prejudicada por medicações psiquiátricas que tomei há 2 anos atrás que estavam me mantendo numa condição de profunda depressão crônica. Essa foi a terceira experiência desde que comecei este momento de tratamento para que meu cérebro seja "des-danificado" nos receptores e nos produtores de serotonina que os antipsicóticos esmagaram e cuspiram fora um lixo humano. Mais detalhes sobre isso podem ser vistos nos meus outros dois relatos deste período atual: "Oi, Eu voltei, seu Eu feliz" (xp 84, 86 e 87) e Cruzamento de Mescalina com Psilocibina (xp 88). Elas foram bem-sucedidas em me trazer de volta o amor, paz, esperança, positividade, etc. Mas, ainda sentia muita trava e muitos padrões e, sem tempo em minha vida, aproveitando uma "férias" que me dei, que me dá descanso mental e físico e me ajuda a me recuperar, numa oportunidade que não se repetirá em pelo menos um ano... bem, se meu corpo e meus músculos ainda guardavam resquícios dos danos que as medicações me causaram, então eu precisava ir fundo, muito fundo. Eu precisava resetar meu cérebro de vez, não sei dizer, ir além do corpo, do espaço-tempo, ter perspectiva, dar um choque no meu corpo, na minha mente, e assim foi.

Não vou tratar muito aqui da questão que me levou à experiência, porque estou um pouco além e aquém de tudo isso neste momento. Sim, teve um efeito, sim. Estou bem melhor, é verdade, mas não será apenas esta experiência que me colocará de volta nos trilhos pré-medicação, e sim um tratamento contínuo a ser mantido esse ano, em doses bem mais baixas a princípio.

O que eu venho narrar então é a trip em si, em que finalmente eu vislumbrei a natureza verdadeira vibracional unificada da realidade, uma cognição que de fato me ajuda a me tratar em meu momento, aumentando minha conexão com o Universo.

Preparação e Dosagem


Eu não estava confortável com a ideia de ir a 12 gramas. Isso mesmo, eu achava que eram 12 gramas, mas quando fui abrindo os saquinhos de 2 em 2 gramas (estou sem nada de cultivo há 2 anos por conta da tortura que me foi imposta na época do tratamento psiquiátrico, então GRAÇAS A DEUS EXISTEM PESSOAS QUE VENDEM), o resultado final foi 14 gramas. Eu meio que gelei "caralho, nem 12g eu tava tão corajoso, imagina 14g!".

Durante a tarde daquele dia, um velho e bom obsessor ou não sei o quê ficava no meu ouvindo criando cenários de medo e pavor: "você vai isso, vai aquilo, vai acontecer aquilo outro, não vai lembrar de nada e de repente vai dar nisso" etc etc etc, muito, muito pavor por parte desse espírito que tem tido muito prazer com meu sofrimento. Havia aquele lado negro, negativo, odioso meu que estava apavorado: "não, porra, demorei 4 décadas pra finalmente te jogar neste estado emocional, você não pode sair disso! Não tome cogumelo! Se tomar, você vai enlouquecer, vai quebrar tudo, vai ser preso, vai pro hospital, vai..." e eu "FODA-SE ENTÃO EU ENLOUQUEÇO CARALHO".

A questão era de vida ou morte. Não era diversão. Não era busca espiritual. Era eu, aqui, agora, que há um mês atrás já começava a caminhar pro suicídio, e que agora via que tinha que aprofundar a melhora.

A preparação do meu setting começou no dia anterior, com compras de coisas pra comer no fim da trip, preparo das frutas já descascadas, Doritos, etc. Todo o ambiente corretamente seguro, sem vidros, etc. Playlist do Pink Floyd etc. Saquinho de plástico do lado da cama caso vomite, o que nunca precisei usar. Etc etc etc

Receita de Chá simples, perfeita e ideal: cortei os cogumelos secos num prato, macerei uma vitamina C não-efervescente em um recipiente e joguei na panela com 700 ml água, esperei começar a ferver e joguei os cogumelos. Deixei lá fervendo em fogo baixo até que a linha da água chegasse no nível que marquei com uma colher, que daria 400-500 ml. Usei um coador bem fino (no caso metálico) para colocar todo o chá em um recipiente que media a quantidade de chá. Ali amassei o bagaço com a colher e depois de esfriar terminei de amassar com as mãos e joguei fora o bagaço dos cogumelos. Sobrou 400 ml no recipiente. O motivo de eu controlar a medida do chá após terminado é para finalizar ele com a adição de suquinho em pó de maracujá: 18 g fazem 1 litro, então com 400 ml eu coloquei 9 gramas (sim, pesadas, de pozinho de suco). Resultado: um chá 1000% potente (pois a vitamina C impede que a psilocibina oxide, de forma que o chá fica transparente, e não azul) e sem nenhum resquício de sabor de cogumelo (colocar a quantidade exata de pozinho de suco deu um sabor delicioso ao chá).

Finalmente eu alcancei o estado da arte na feitura de chás. Foi o chá mais gostoso que fiz em 11 anos. E também o mais potente kkk.

Bem, pra dosagem eu escolhi que o horário seria 18h, para uma trip que duraria até depois de meia-noite. Separei o chá em 3 copos diferentes, porque era chá pra dedéu, com volumes iguais. E estabeleci que tomarei cada copo com um intervalo de 15 minutos. Quando deu 17:45h, já tomei o primeiro e comecei os últimos preparos de cima da hora. Mas o buraco começou a ficar muito louco rápido.

Quando bateu 18h e eu ia pro segundo copo, eu já ouvia vozes na minha cabeça que diziam: "nãããããããããããooooooooooo", e coisa já tava começando a ficar muito doida, sabe, realmente um desfazimento da realidade já se construía naqueles primeiros 15 minutos! E na minha experiência, quando ocorre isso, a coisa vai ser violenta! Mas eu só tinha tomado 1/3 do total!!!

"Mano, se eu não tomar essas duas doses agora, não vou conseguir voltar pra tomar a terceira!"

E assim eu virei os dois copos que faltavam, e fui pra cama, pro som, pro êxtase.

A EXPERIÊNCIA EM SI - DESTAQUES​

É realmente muito difícil explicar, mas primeiro eu preciso que vocês que buscam a morte do ego, a quebra do ego, o desfazimento do ego, etc., que quando o ego se desfaz, ainda há alguma coisa observando o ego se desfazer. Mesmo que você veja a verdade última do Universo e que nada existe, ainda haverá o seu eu-não-eu ali. A quebra do ego não é dormir, não é inexistir. Ainda que seu ego se desdobre no Universo, que você se torne um com Deus, que você seja uma cadeira... tudo isso mata o ego como o conhecemos aqui, mas ainda é mantido o olhar, o seu olhar, o seu eu, mesmo que se perca no Universo e deixe de ser eu, se torna apenas mais um novo eu do seu eu.
E esse eu-não-eu começou um processo profundo de êxtase, em que eu precisava lidar com meu corpo, que pedia respiração, que parecia explodir, que estava claramente em conflito com a sobrecarga no meu cérebro. Então na mesma medida em que eu vislumbrava realidades além da realidade, eu tinha que lutar contra uma certa falta de ar e um certo desconforto. Graças a Deus, tomei um antiácido logo após o fim das doses (o copo também tava separado), então meu estômago tava incomodando, mas nem perto do inferno que podia ter sido.

Me debatendo pra lá e pra cá, olhos fechados, fui jogado longe finalmente, apesar de que eu ia a vinha porque tinha que lidar com o desconforto no meu corpo.

Mas o bagulho ia ficando cada vez mais louco, até que o desconforto passou a ser também mental. Caraaaaaaaaaaaalho é demaaaaaaaaaaaaaais.

Nessa hora eu lembrei do mantra "é apenas a substância, vai passar", porque eu conseguia entender ali claramente porque um monte de doido vai atrás de médico pra tentar sair daquele pandemônio. Só que ao invés de dizer isso, eu dizia "é apenas a substância, e que venha maaaaais" enquanto sofria, enquanto aquilo me sobrepunha, enquanto pensava também "graças a Deus essa porra é cogumelo e não vai demorar demais pra começar a baixar essa desgraçaaaaaaaaaaa".

Foi então que comecei a visitar as primeiras quebras de espaço-tempo, de separação entre as coisas. De fato, ali começou a quebra do ego. A divisão entre o eu que observa e o mundo se desfez? Não. Porque pra desfazer tem que existir, e ali, ali era tudo muito além. Ao mesmo tempo que lindo e impressionante, era tanta coisa vindo, era tanta informação. Eu ouvia vozes de mulheres dizendo "maconha", indicando que a maconha tinha algo a ser trabalhado comigo. Enquanto isso, eu do nada estava em um bar.

Sim! Eu fui pra um bar hiperespacial!!! Cara, é muito louco isso. Em certo momento eu comecei a abrir mão de aspectos da realidade, de localização, se estava alucinando, ou se era tudo realidade. Ao mesmo tempo em que tudo se desfazia e refazia, em que frente era trás e trás era nada, eu podia apenas pedir um... chá? Um café?

E por que não ter um interlúdio de conversa diária enquanto o Universo se desmonta: "uai, mas pode isso?"

Em certo momento, eu estava realmente na minha vida, eu não estava alucinando, não. Eu estava apenas vivendo a minha vida em um Universo que explodia em formas. Uai nada mais normal do que comer um biscoito enquanto o céu parece uma nave hiperespacial voando por Universos e a mesa vai e vem em termos existenciais pra trás pra frente e no meio ao mesmo tempo.

Eu não queria mais lutar com aquela loucura? Se eu não podia saber o que era realidade, então eu me entregava àquela que estava nela.

Mas, peraí... e como tá meu corpo lá fora? Eu estou gritando, me debatendo, fazendo o escarcéu... como tá meu corpo? Será que eu enlouqueci e vou viver aqui pra sempre? "Bem, se for esse o caso, me serve outro chá, não dá pra desfazer, quando a gente surta, surta e ponto final, não se questiona de loucura, então, deixa eu aqui".

E enquanto eu vivia naquele Universo-não-físico eu simplesmente cuspia na cara de tantos pensamentos que fazem tantos surtarem nesse momento: "a polícia pode te prender pela bagunça", "que prenda, meu corpo tá lá fora"... ou "você enlouqueceu e seu corpo tá lá fora parado" e eu "foda-se, então, que eu tenha enlouquecido". Aqui eu preciso destacar a prática de 11 anos de cogumelos e muitos condicionamentos para pensas as coisas certas enquanto estou na trip fora do meu corpo.

Mas era tudo demaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaais e eu meio que não tava aguentando. E o que eu fazia? "Agora aguenta porrraaaaaaaaa você pedddddiiiiiuuuu"

E a porra dos efeitos só iam ficando mais e mais fortes e era tanto inferno e céu em minha cabeça e meu corpo sufocando aqui e ali, vontade de vomitar que só virava arroto, arrebatamentos extremos pra mistos de êxtase e dor de tão prazeroso... e de repente a imagem que me veio na cabeça foi a porra do Aprendiz de Feiticeiro da Disney, que o Mickey usa magia pra transportar água por preguiça e no fim dá uma merda do caralho e inunda o castelo... e ali aquilo ali era eu, que meti a cabeça num buraco maior do que o Universo e agora tava ali me sentindo afogado em ondas intensas de prazer a ponto de dar agonia: "não, não fomos feitos pra viver desse jeito! O cérebro Humano não aguenta a verdade por tempo demais!". E, de fato, o Aprendiz de Feiticeiro é uma metáfora exatamente para esse momento da prática enteogênica, em que a desgraça do aprendiz de "space cadet" (In the Flesh) finalmente se coloca em um pandemônio psicodélico de nível 5.

Os efeitos foram crescendo e crescendo! De repente, minha pele se tornava prazerosa, eu começava a lamber meu corpo, minhas mãos, meus lábios. Chupava meus dedos, como se fosse um demônio que tem orgasmos ao lamber o sangue de uma vítima de suas mãos. Era mais que prazer, não era luxúria, era prazer que incomodava porque era muito prazer, era muita porrada na cabeça: "You took too much man, too much" (Medo & Delírio em Las Vegas) - "você tomou demais, cara, demais mesmo".

Dentro de mim eu tinha uma esperança muito grande que meio que aquilo fosse embora e acalmasse e eu chegasse na fase profunda da trip, mas sem sofrer tanto no físico. Só que isso não aconteceu. Ao mesmo tempo, entretanto, em que eu sofria, eu também dizia "enfiou a cabeça no buraco beija a porra do tatu!". Na verdade eu não dizia isso, mas aplicava essa minha verdade sobre psicodelia.

Em algum momento comecei uma gritaria que extravasava meus sentimentos sobre mim, sobre o mundo, e até política, essa desgraça que quero mais que se exploda. Eu gritava muito muito. Mas não só gritava, eu também fazia com a boca barulhos de peidos quando vinha na mente que alguma pessoa ou energia estivesse com problemas com meus gritos. Eu fazia assim: "[gritos], HÊEEEEM??? (bem alto gritado) PRRRUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU". Na minha mente eu ria horrores, e foi realmente um momento muito divertido. "Vão me prender por quê? Porque eu faço barulho de peido?"

E toda hora "hêm???" e depois "PRUUUUUUUUUUUU" acho que fiquei uma meia-hora nesse processo de desabafar, gritar, saber que toda a vizinhança tá ouvindo... mas no fim eles ouviam também uma porra de um barulho de peido! uauhahuahuahuauhauha Pelo horário disso, em torno de 21h que deve ter sido, no máximo as pessoas passavam na rua e deviam rir. Além disso, como já sou o doido da rua há uma década, e já passei por várias fases... hoje em dia ninguém mais liga, sabe... é só o doido mesmo. E fico feliz, porque antigamente tinham medo. Hoje sinto amor de todos.

E bem, peidando com a boca a maldade do meu coração foi se esvaziando. Enquanto isso, a porra do rock do Pink Floyd rolava com força. E quem tripa com Pink Floyd sabe o que são aquelas batidas de fundo, o que são os momentos de fanfarra musical, em que todos os instrumentos explodem, e eu explodindo junto: "vamos todos ficar loucos nessa porra".

Após esse extravasamento de puns orais espirituais meu corpo, que lutava pra não explodir, sentiu os primeiros sinais de estabilização do pico, ou, como eu já sei, eu teria chegado na segunda metade do pico dos efeitos. Estava forte, mas agora eu já conseguia conciliar meu corpo, minha existência física, com tudo aquilo. Quer dizer, ainda não conciliava, mas começava.

O que meu corpo quer? Tenho fome? O que tá acontecendo? Veio vontade de urinar, eu confirmei que era vontade mesmo, e finalmente tive condições de levantar da porra da cama. (Me desculpem xingar tanto, mas os palavrões ajudam a manifestar a violência da dosagem).

Claro, aqui outra prática importante de já ser experiente: não sai levantando do nada, nem saí acendendo a luz do quarto do nada, isso pode ser muito perigoso em doses tão altas. Mudanças súbitas de setting podem ser desconfortáveis demais. Eu então primeiro sentei na cama, fiquei ali um tempinho, me adaptando a não estar deitado. Depois eu refleti sobre acender a luz, e me preparei: "eu vou acender a luz, as coisas vão mudar". E, bem, deu tudo certo, estava eu de pé de frente pra porta então com luz acesa, vendo tudo a minha volta se mover. Abri a porta pro corredor.

Aquilo era um corredor? Sim. Era um corredor. Mas eu? Pera, não pode ir andando, o trabalho aqui é espiritual, é forte demais. Você tá passando por batismo de novo, vai arrastando até o banheiro.

Mano...

Agachei no quarto e sai dele até o banheiro me arrastando. E eu juro... nunca um corredor foi tãããããão longo. Porque nem sempre o fato de eu puxar meu corpo pra frente correspondia ao corredor ir na mesma medida pra trás. Mas, claro, eu sabia que uma hora ia chegar. E cheguei. Senti, fiz xixi sentado claro, meditei na privada um pouco e quis voltar pro quarto. Mas pra voltar, tinha que ir arrastando de novo.

Eu agachei mas... não consegui sair do banheiro. Fiquei com metade do corpo no corredor e metade de baixo no banheiro.

E foi nesse momento em que eu tive a maior realização que eu poderia buscar com a psicodelia, vejam bem, não digo "enteogenia", ok? Agora eu digo psicodelia mesmo, apesar dos benefícios enteogênicos. Há 11 anos atrás eu imaginava se um dia eu poderia chegar ao que cheguei neste momento, em ver as coisas que eu vi neste momento. Sim, eu passei por muitas experiências, vi muitas coisas da realidade, mas ainda não tinha chegado na essência vibracional-ondular-girante-matemática-una das coisas.

Ali no corredor, ainda no pico, deitado, voltei a ondas de êxtase e arrebatamento, agora com o corpo mais adaptado a tudo aquilo, minha experiência no hipespaço não era mais um pandemônio infernal cosmológico trans sei lá o que. Agora o arrebatamento conseguia ser mais tranquilo e assim eu fui....

Em um dos meus fechar de olhos, eu pude ver. Eu vi toda a existência, todo o Universo, toda a vida, tudo se tornava apenas uma espiral unidimensional, em tons amarelos, que girava. Como era unidimensional, tudo era a mesma coisa. Eu vi essa espiral e pude finalmente entrar em contato com essa informação que tantos contam quando retornar do hiperespaço. Subitamente, toda a minha percepção da matéria, da vida, tudo se tornava de fato energia. Tudo era apenas uma espiral matemática, uma essência. Eu vi essa espiral, eu vi essa essência. Não chamo de Deus, não há Deus, não precisa haver Deus, não sou Deus, não deixo de ser Deus... o bem e o mal?

Neste momento eu finalmente me senti entrar em contato então com... Deus? E lhe fiz algumas perguntas sobre ética e vida e resposta que eu "recebi", bem, eu não só "recebi" mas eu vivi ela.

Me tornei uma gazela nos campos e fui devorado por um leão. Leão e gazela são a mesma coisa. Em algum nível da existência, a gazela goza e tem orgasmo com o fato de ser devorada. A superação do bem e do mal se torna então o fato de que só há prazer, não há bem nem mal... difícil explicar. Mas sempre que alguém me causa um dano, me prejudica, me faz mal... em algum nível meu espírito goza com aquilo, não de um jeito que eu entenda agora... talvez só depois de morto.

Por que existe maldade? Porque acreditamos na separação.

Claro, essa percepção está além da cadeia de karma, ok??????? Se você faz mal, você irá sofrer de volta, em regra. Essa percepção está além da religião, além da ética, além do dia a dia.

E então eu senti... sempre que fazemos mal a alguém, fazemos mal a nós mesmos, a todos, de fato.

Ali eu pude finalmente entender o que poderia ser o motivo de Deus permitir afinal que haja maldade gratuita no mundo. É porque, em essência última, não há maldade. Só há prazer. E toda a maldade e sofrimento vem através da ilusão da separação, dos egos doentios. A morte do ego não se trata de não ter ego, mas de tornar o seu ego mais saudável pra corresponder à ordem amorosa que rege o Universo. e poder, quando voltar aqui pra Terra, ser alguém melhor.

Bem, após essa realização da natureza vibracional (na verdade não é bem vibracional, mas é a melhor palavra) de tudo e como somos todos ume (uso de pronome neutro porque não há gêneros aqui), senti vontade de fazer xixi de novo, ali mesmo no chão. Eu odeio a ideia de me mijar em trips e graças a Deus nunca aconteceu, mas ali eu me permiti... afinal, tava no chão do banheiro. Mas, saiu bem pouquinho, só sujou a bermuda, que eu tirei e fiquei pelado. Voltei me arrastando pro quarto e finalmente pude levantar.

Levantei e dancei um pouco, brincava, olhava o ambiente ao redor. Conseguia lidar com meu corpo e ainda estava conectado do lado de lá. "Será que é agora que eu devo fumar um baseado na trip?" me veio a dúvida. E, irmão, foi nessa hora que o cogumelo me chamou pra conversar, mas de forma mais amena. O cogumelo me encaminhou pro banho, eu tomei um banho quente ouvindo o rock de fundo, derreti na água, era bom demais. Muitas percepções com o ambiente. E ali o cogumelo foi pensando comigo:

"Cara, você fez uma imersão gigantesca pra me permitir trabalhar seu cérebro e te curar... se você fumar maconha nessa experiência, você já sabe o que vai acontecer... você vai ficar bombeando maconha pra dentro porque a cada trago ela faz os efeitos do pico voltarem, mas a que preço isso? Sempre que você bota maconha no tratamento, no fim o que você tem é apenas uma compulsão de fumar mais e mais maconha que devagar sobrescreve os meus benefícios. Eu sei que você pensa que com mais potência você vai ter um tratamento melhor, mas não é o caso. Eu preciso trabalhar com você por mais algumas horas, só eu e você, até o fim, sem maconha".

E, relutantemente, eu obedeci, mas sempre na trip ficava "será que agora posso?"... mas mano, foram 9 horas total de viagem, 3 mais que o normal, e na oitava hora eu ainda conseguia ter visuais maravilhosos na minha cama. Eu realmente conclui que eu só consegui entender até o fim o trabalho da psilocibina porque eu não tinha misturado maconha. Claro, nada me impede de fumar erva numa trip na minha vida, mas o objetivo dessa era muito grave e a necessidade da psilocibina trabalhar plenamente era absoluta.

Então, as últimas horas foram deitado na cama, prazerosamente, escutando os últimos álbuns da playlist do Pink FLoyd. E ali, até dormir, eu tive pequenos êxtases, pensamentos, conclusões, repescagens de tudo que vivi, do que sinto. Acabou o último álbum. Veio o silêncio. Devagar eu fui... e quando vi, dormi.


CONCLUSÕES​


Infelizmente eu não consigo traduzir em palavras a profundidade desse momento e dessas imagens. Assim como não consigo traduzir em palavras como é estar numa casa no hiperespaço vivendo um dia-a-dia num Universo psicodélico em que as coisas entram umas nas outras, em que limites se desfazem. Acho que só mesmo vivendo, e é incrível, mas também é árduo. Porém, recompensador.

Acho muito difícil qualquer noção de navegabilidade nesse nível, mas acho que ela exista. A forma como eu lidei com "meu corpo tá lá fora? Foda-se" e "eu enlouqueci lá fora e tô preso em minha mente? Foda-se" são reações de boa navegabilidade. Não dá pra controlar pra onde vai, mas dá pra ir surfando junto, mesmo, não dá pra controlar a onda, mas dá pra surfar nela até quebrar na sua cabeça ou te deixar na praia. As coisas chegam até você e você se agarra e reage a elas. Não dá pra dizer pra onde ir, mas dá pra reagir onde se estiver. Talvez um dia, numa dessas, eu realmente caia em um corredor, como aquele que imaginava antes de começar a tomar cogumelo, em que eu abriria portas que dariam pra aspectos do meu ser a serem trabalhados. Mas eu nunca serei capaz de fazer com que esse corredor surja. Se ele vier, virá por si mesmo.

Edit: navegabilidade. O ponto fulcral da navegabilidade é abrir mão dela, ou de qualquer conceito de sentido. Não é que você não possa tomar decisões aqui e ali, mas você precisa abrir mão de tantos conceitos existenciais do dia a dia que a própria noção de navegar ou direcionar perde o sentido. Você apenas segue. A única verdadeira navegabilidade é a de se entregar totalmente ao que vem: "deixa sua sanidade lá fora, senão você não consegue entrar, mas não há pra onde sair, venha logo". Quanto mais você se deixa ir, mais você se deixa navegar. E é apenas isso. Ou menos complexo. Você pode planejar ter um monte de pergunta pra Deus após ver a verdade última de tudo, mas como você já viu, você não se importa mais nem em ter perguntas e diz "tá bom Deus, deixa pra lá, quero falar não, não preciso de verbo" que foi o que ocorreu comigo kkkkkk por ai vai.​

O dia seguinte é realizador mas estranho, porque ver essas verdades pode dar vontade de esvaziamento sobre nossa pobre realidade física que, apesar de ilusória, machuca e dói. Contudo, eu pude de fato elaborar ferramentas de percepção sobre minha vida e sofrimentos que conseguem superar dores em conectar com as pessoas. Eu sou você, você sou eu. Quando você me faz mal, você se faz mal. Mas, no fim, não há mal, só há gozo.

Acordei bem e fui dar o passo extra no meu tratamento da minha bioquímica cerebral, algo que tem me feito um bem tão grande quanto os cogumelos: exercícios físicos, tenho feito academia. O combo do relaxamento da psilocibina do dia anterior com a liberação de endorfina pelo exercício com certeza me fez muito bem.

E é isso. Tantas coisas podiam ser ditas, mas paro por aqui.
 

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